17 novembro 2015

Outra madrugada (vivido por Margarete)


Acordei aos gritos, Juninho já estava sentado enrolado na coberta em cima de sua cama. Mas uma vez a cena se repedia, e só tínhamos os gritos como canção de ninar. Me levantei e fui para a junto dele, que parecia mais assustado que das outras vezes.
-Eles estão brigando outra vez, Margarete? Outra vez! -Ele falou com as sobrancelhas frangidas. -Você disse que aquela seria a ultima vez!
-Não se importe com isso Juninho, casais costumam brigar.
-Mas o Enrique disse que foi assim que os pais dele se separaram, depois de muitas brigas.
Tão ingenuo, se ele de fato soubesse o significado da maioria das palavras que vinham de trás da porta, desejaria um divórcio. Bom, não foi sempre assim... costumávamos ser uma família tradicional, com problemas comuns, até meu pai se tornar um "bêbado maniaco", foi assim que o chamei na ultima discussão que tivemos, sei que havia o magoado pois ele estava consciente, mas enquanto a mim? Sei que o vicio é algo bastante forte, mas tudo se inicia em uma decisão. E eu sinto que ele preferiu nos deixar, mesmo sem notar. E agora? Vivemos em um campo minado... e como posso confortar meu irmão entre berros e xingamentos? Só vivera apenas 2 de seus 5 anos com o meu pai, quando ele ainda existia. Pois aquele homem que briga com minha mãe, por trás dessa porta, jogando objetos no chão e gritando palavras horríveis não é o meu pai... Meu pai gostava de ouvir Country, e passava horas observando animais feitos de nuvem. Meu pai costumava criar brinquedos com peças restadas da oficina onde trabalhava, para alegrar o dia da sua garotinha. Sua menina, que sempre o esperava em frente de casa, pronta para pular em seus braços que a fazia sentir-se capaz de voar. Ela nada temia quando ele estava por perto, mas agora... é quando ele está perto que ela sente medo. Maldita! Só quem já perdeu alguém para ti entende meu ódio... cadê você meu pai?
-Margarete? Está chorando? -Juninho me desperta, e quando noto as lágrimas corriam pelo meu queixo.
-Hora de dormir Juninho! -Falei as pressas tentando disfarçar o drama, o pondo para deitar.
-Mas...
-Nada de mais, amanhã tem aula e precisamos dormir.
Ele não questionou, apenas ficou deitado ouvindo. Eu também ouvia da minha cama. Eramos obrigados a ouvir, a sentir dor e continuar calado, a fingir que nada acontecia naquela sala... e amanhã não seria diferente.

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