29 outubro 2014

A Pesquisa de Júlia - Episódio 6

"Tenho você" -I Got You (aqui)

-Então você está me dizendo que pegou um trem do qual não sabia o destino com a intensão de concluir uma pesquisa, a qual foi planejada de uma hora para outra depois que uma garota disse que você não sabia amar. É isso?
-Sim.
-Não me surpreendo com a atitude do tal professor de filosofia, ele deve ter pensado que você era louca e que não iria se importar.
Ao ouvir aquilo aquela mesma sensação de raiva invadiu Júlia, logo parou de comer aquelas gordurosas batatinhas e se levantou  indo em direção a porta sem ao menos olhar para trás. O garoto por sua vez, a seguiu tentando a impedir.
-Não, por favor! Me desculpe.
-Afinal, quem você acha que é? O cara mais genial do mundo que consegue conquistar toda garota que quiser? Ou o tipo garoto revoltado que curte Rock pesado e que não passa de um zé ninguém?! Seja lá quem for você, saiba que para mim é um tremendo idiota! E se quer saber, é por causa de pessoas como você que muita gente deixa de acreditar no amor!
Júlia tentou ir e ele por fim a soltou, e ficando na mesmo local a vendo partir. Ela não queria ir embora, mas não podia ficar com pessoas com aquele pensamento que a torturava a anos. Tentaria aceitar o fato de estar sozinha. Mas a menina só soube chorar. O garoto se arrependeu completamente quando a viu sentada na calçada com a cabeça entre as pernas, parecia uma criança assustada. Ele então sentou ao seu lado, e ficou em silêncio.

 Estava escuro e os dois jovens se encontravam sentados em um beco escuro, no qual poderiam conversar e talvez até passar a noite. Júlia tentava se aquecer com a jaqueta de couro que Davi, seu mais novo amigo, havia lhe emprestado. Ela o encarava enquanto ele observava o nada, perdido em seu próprio silêncio.
-Segunda alternativa. -Disse ele sem piscar os olhos.
-Como?
-Eu sou do tipo garoto revoltado que curte Rock pesado que não passa de um zé ninguém.
-Me desculpe, eu costumo falar coisas bobas.
-Mas disse a verdade... bom, nem Rock pesado eu sequer ouso mas, por mais que a gente minta, nunca seremos capazes de fugir por completo da verdade. Certo?
O silencio se pós entre os dois novamente, Davi agora estava com os olhos fechados com uma expressão de cansaço. Assim como Júlia, ele também havia lhe contado a sua história e o que fizera enquanto vagava por ali. Apenas um garoto que tentava fugir dos problemas e responsabilidades... da realidade em si.
-Se você pudesse ter um pedido, como daqueles em contos de fadas. O que desejaria? -Perguntou ela, numa tentativa de iniciar uma nova conversa.
-Eu desejaria nunca ter saído de casa, abraçaria meus pais todos os dias e tentaria os entender. Desejaria recomeçar, sabe? Do 0. Creio que você também, certo?
-Não... sim! Bom, claro que eu gostaria de voltar para casa e continuar vivendo minha vidinha de diversão. Mas, eu queria mesmo era concluir aquela pesquisa.
-Júlia, me perdoe mas acho tolice de sua parte tentar provar algo para aquela garota.
-Não! É bem mais que isso Davi... Esse tempo todo, eu usei a Bia como um pretexto. Aquela pesquisa tinha mais significado para mim. A verdade é que eu tenho medo de não aprender a amar novamente, de não conseguir acreditar em alguém ao ponto de me entregar por inteira. Medo,entende?
-E por quê tanto medo? Eu li sua pesquisa naquele caderninho e pelo o que eu vi você sempre soube o que era amor.
Júlia se manteve em silencio, em uma tentativa de não falar mais sobre aquele assunto. Mas, Davi não era dos que desistia facilmente.
-Eu larguei a faculdade, fugi de casa e sai da minha cidade. Conheci um garota louca com uma pesquisa maluca, e contei a ela toda a minha história sem esquecer quaisquer detalhe. -A encarou. -Júlia, estamos juntos nessa. Certo?
Ela parou no tempo e pensou sobre tudo o que vivenciou, e se devia mesmo compartilhar isso com alguém. Fechou os olhos e respirou fundo, então sentiu aquele velho e conhecido peso sobre si. Ela precisa se libertar.
-Eu tinha 13 anos, morava com a minha mãe e vivíamos de aluguel. Eu sempre quis ter uma família como aquelas dos filmes que sempre passavam na TV. Mas eu nunca conheci meu pai, ele simplesmente havia me abandonado. Mas um dia minha mãe conheceu um cara  e os dois ficarão juntos por um bom tempo, e...
A voz da garota simplesmente se estremecia, e quando Davi se dá conta a vê chorando novamente. Ele a abraçou tentando acalma-la.
-Ele não tinha uma bom coração, Davi! Durante esse tempo, quando minha mãe saia para o trabalho ele me tocava com aquelas mãos imundas e...
Júlia tentava explicar mas o choro a impedia, todavia não era mais necessário qualquer palavra para Davi entender o final daquela história. Agora tudo fazia sentido. A busca, o medo, o choro e o passado. Ele a abraçou mais forte, já ela não conseguia dizer mais nada.
-Shii! Não fale mais, não precisa.
Entre lágrimas e soluços, Júlia acabou adormecendo sobre o peito de Davi. Ele aproveitou o momento para brincar com os longos cabelos da garota, o alisando enquanto pensava o quanto ela havia sofrido, e entendendo por fim o peso daquelas palavras que havia dito na lanchonete. Os dois adormeceram ali mesmo.

 Júlia abriu os olhos e logo percebeu a falta de Davi, pensara até que havia sido deixada para trás. Mas logo ele aparece com alguns sanduíches em uma sacola.E ofereceu um a Júlia, sentando ao seu lado.
 -Júlia, não dá mais... -Disse ele com uma expressão séria em seu rosto.
-Sobre o que está falando?
-Sobre minhas escolhas, eu fui um covarde! Eu tive tudo e joguei fora sem pensar duas vezes. Enquanto pessoas passam por coisas piores como aconteceu com você, e mesmo assim continuam tentando. Aqui estou eu, fugindo da minha própria história!
-Ainda não entendi o que você quer dizer com "não dá mais".
-Eu vou voltar para minha casa, ainda hoje.
Davi levantou decisivo, mas Júlia barrou sua passagem ficando de frente para ele. A garota estava assustada com a decisão de Davi, sem ele, ela ficaria sozinha e não queria voltar para sua própria casa por tão cedo. Depois que recordara do passado, retomou a sede de persistir.
-Não, Davi! E-eu, eu preciso de você.
Ao ouvir aquilo ele sorriu, um sorriso que deixou Júlia um pouco confusa pois estava realmente falando sério.
-E quem disse que irei te deixar? Você vem comigo.
Júlia não escondera o que sentira e logo o abraçou enquanto sorria de orelha a orelha,.
-Estamos juntos nessa... certo?
-Certo.-Respondeu com firmeza o rapaz.
Os dois riram da situação em que se colocaram, pegaram as mochilas e foram juntos, andando enquanto conversavam felizes, para algum lugar dali.

Um comentário:

  1. Ok, eu dei uma lida nos eps anteriores (cara, eu tô á um tempão sem postar), e o modo simples como você escreve nos faz devorar os textos rapidamente. Tô realmente adorando ler.
    cronicasdeumlunatico.blogspot.com

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